4.8.13



Tive o prazer e o desafio de escrever a apresentação do livro de estreia de Leonardo Chioda, Tempestardes (editora Patuá). Eis.
 
Leituras outras
 
Uma tarde junto à poética de Leonardo Chioda é tempo suficiente para a percepção do atemporal. As torrentes vocabulares que presenciamos ao ler sua poesia, repletas de comoção porém límpidas de anuviamentos, configuram uma espécie muito particular de portal – o poeta instaura o tempo, como deve ser, seu universo e criação, e nos convida à passagem. O poeta é um deus. Ou, como o autor pudesse ele mesmo designar, imerso na cultura que lhe é pertinente, um herói.
 
Semidivino, transita entre os deuses e os homens, e, nesse sentido, é portador da revelação do ser da e pela palavra, como anuncia Octavio Paz: "é a revelação de si mesmo que o homem faz a si mesmo".

Decerto todos os poetas o seriam, porém Chioda ostenta desmedidamente a heráldica do lado arquetípico da força: sua dicção avista-se – e, pode-se intuir, para futuros não muito distantes, alinha-se – com a dos autores que na história da literatura derivaram para o sagrado primordial, o sagrado que no dizer de Georges Bataille abarca o bem e o mal, o puro e o impuro. A unidade.

É esta a linhagem, a de todos os que escreveram em desafio ao racionalismo, que o leitor antevê, convidado à clarividência pelas palavras. Brutas, magmáticas, na poesia de Tempestardes elas em maioria irrompem/brotam inteiras, fundacionais: carregam em si uma espécie de seiva ansiosa por eclodir, a sua real primordialidade. E daí já não são signos e significados apenas, mas células, sementes, para permanecer no universo semântico da natureza, um dos escolhidos pelo autor nesta estreia.

Em estado de fogo, como o hebreu dos antigos, as palavras aqui criam. Coladas à anunciação que lhes parece intrínseca, elas encarnam a própria profecia; elas são o fato mágico. Para os iniciados em magia, ocorre a familiaridade à potência do verbo – entramos então na esfera das invocações, dos conjuros, dos encantamentos. Palavra que engendra e determina. Para os que não, o feitiço surge no incomum desembrenhar dos poemas, cada um, como Chioda propõe, um golem particular. Estranhamento. O destino não tem rosto/ Só um cristal negro de sete pontas perpétuas/ Sob um casaco tom de sangue/ Coagulado. Rosas antigas nas patas/ O destino tem a boca de florilégio – um mosaico ("Poética do destino").

E, no sentido também rústico do pagão, cada vocábulo cresce em corporeidade, desabrochando de si mesmo. A clarividência dos signos ao mesmo tempo comporta a animalidade, como uma esfinge de vísceras à mostra, que desafia os códigos do oculto, expondo-se. Leonardo Chioda nos convida a uma peregrinação pelo templo do sensorial, fotogramas encantatórios porém telúricos. Beija os escritos/ sob o signo da vertigem/ só o fim da manhã é/ o mediterrâneo da linguagem ("Os verbos de vernação").

Daí a exuberância, especialmente na primeira parte, dedicada, como ele diz, "às tardes com chuva". São mediterrâneos e texturais os caminhos: com pérgolas, cerâmicas, heras, sálvias, hibiscus, vinhas, colunas, citrinos, viagens pelo Cáucaso, Chipre, Creta, Sevilha, Porto, a Andaluzia. Na segunda parte, dedicada ao mar, adentramos mais na mitologia, ao oceano como a grande hipóstase, como o autor aponta – ninfas, sereias, Anfitrite, as nereidas, que unem-se às demais habitantes do livro, dríades, greias, equidnas. Hoje eu/ compacto do azul/ tua quimera criada à espreita/ encantatrizes e barcos/ no porto/ os vinhos santos ("Egeu").

O azul predomina, ladrilhar é seu verbo, e, assim como às potestades, ficam mais evidentes as referências de Chioda quanto a grandes fontes. Além das metafísicas alusivas a Hilda Hilst e Cecília Meireles por toda a primeira parte de Tempestardes, estão lá os guias, em maioria e especialmente ibéricos: Helberto Helder, Eugénio de Andrade, Gabriela Llansol, Sophia de Mello Breyner Andresen, Federico Garcia Lorca. "Bibliomancia", induz. Sem mencionar os sopros alquímicos que também chegam da modernidade, nas presenças de Sergei Parajanov, Bjork, Egon Schiele, Devendra Banhart, Jane Birkin, entre outros, quando o autor integra contemporaneamente inspirações variadas à sua cornucópia visionária.

Todas as palavras em estado primordial e ainda todas as entidades atemporais do universo de Leonardo Chioda encerram o livro em tom variante mas derivativo do início. Em contato com o outro, o objeto amado com quem é necessário o "acerto de pontas", a lírica órfica torna-se rascante, por vezes urbana, sem que no entanto perca-se a linha da magia: Suor e saliva/ a redigir as águas. Abraço por trás: fileira./ Dois de copas. O mesmo ritmo./ Sempiterno./ Dois, um dia confirmados no espelho/ a sorrir das falhas e venerações. Écogla à teia/ do destino ("ZEITGEIST; anatomia de um").

Em resumo, percebe-se nesta escrita a leitura. A diferença, no entanto, é a dimensão literal do que o poeta lê. Ler, aqui, sinônimo de percepção. Novamente, para os que se familiarizam com a visão mágica, é manifesta a continuidade da leitura do universo, expressa na latência das palavras, mas também estudada e praticada cotidianamente pelo tarô – sendo Chioda um dos maiores tarólogos brasileiros em atuação. As lâminas lá estão, oraculares, como cortes transversais ao estabelecido da realidade, da linguagem, do tempo, porém a favor da unidade. Há que se perceber figuras como A Morte e O Carro, e toda a sua bagagem mítica, não cessando a leitura nos signos, mas extrapolando-os. O universo é espelho intrínseco; as cartas, mapas abertos; no entanto, concomitantemente, a analogia escapa de si mesma, explodindo relações entre poesia e mundo.

Ascese ou risco?... Sem sair da tarde chuvosa, da varanda com o café, dos silêncios dos gatos, o leitor deve passar também pelo portal, sem dar-se conta. O autor, à busca dos deuses pela divindade da linguagem, registra fisicamente aqui o diálogo. Início sem tempo: outra forma de escritura, novo modo de procura, mais leituras e visões a caminho. Agora sai/ e vê:/ a tarde é obra poética/ tempestade/ luz e alguma promessa.              
 
 

 

23.6.13

Câmbio

  
    carregamos os vinténs

    por dentro das roupas, debaixo dos braços, colados nas solas.


    – a esmola

                (de amor e de esperança à terra desce)


    vinte vezes vinte mil conhecemo-os bem.

    porém agora os atiramos de volta


    à face dos que cobram – pagamos a moeda

    para nós a mais justa, tributo à ferida de quinhentos anos.


    pagamos. engulam


    milhões



  


Poema publicado em Vinagre, coletânea virtual organizada por Fabiano Calixto acerca dos movimentos que tomaram as ruas do Brasil a partir de junho de 2013. Participam 158 poetas. O link:
http://en.calameo.com/read/00138915630f992bd9a23

16.6.13

           
         escrever a favor dos dias
          
no tempo sentido à contramão

          da vida que finda
          em toda partida

          escrever em favor
          ao fim que se anuncia
          é escritura ao novo –
          o eterno sempre inicia
 
 

 
- do Vate.

12.6.13

 
O clamor por ti cavalgaria o horizonte. Este corcel em pleno carrossel de desmesurados anseios seria capaz de romper a película do mundo. Por seres tudo o que desejo, ó carnaval de inteiros mitos do amor, é que te cavalgo impotente, em febre pelo que se esvai e se corrompe em corrida, em movidas pelo enlevo. Agora toureio.
 
  
- do Prova. 
 
  
 

3.6.12

TÁBUA AO SOLDADO

 



da terra à terra
: viestes do pó
e pela terra tornas-te tão barro
que desmoldas nas mãos
a fôrma da humanidade

pela terra aniquilas
pela terra estraçalhas
(qual valor é sangue?)
desterritorializas todo direito
             consagrado

que o direito do homem é
– testemunha a Palestina –
terra para todos
vida para todos
à semelhança da semente
a vencer o mármore

da terra à terra
: viestes do pó
e te transformastes em aço



Publicado no caderno "Poemas para a Palestina", da Zunái. Muito bom levantar a voz em versos.
Link: http://www.revistazunai.com/editorial/poemas_para_a_palestina.htm
Imagem: br.geocities.com/ritaamaral/guerra.html

30.3.12



Klimt - Flower Garden